O filósofo da capoeira – por Mestre Moraes
este texto foi replicado do blog de Mestre Moraes, clik aqui para ir ao blog
Mestre Pastinha, caso estivesse vivo, hoje (dia 05 de abril) estaria completando 111 anos. Vários outros capoeiristas,seus contemporâneos,foram quase que apagados da história graças à singularidade como o Mestre Pastinha verbalizou a capoeira.Através dos seus manuscritos,nos deixou interpretados os elementos subjacentes da capoeira angola de maneira que esta arte, materializada pelos seus praticantes, não se permitisse ser limitada a uma atividade física sem nenhum sentido holístico.Mestre Pastinha quis para a capoeira muito mais do que a simples institucionalização do seu reconhecimento. Ele preconizou uma capoeira cujos praticantes a tivessem como "fé de ofício", além de não permitirem o seu fracasso,pois ("...se fracassar a capoeira! é o fracasso dos capoeiristas,mas(ela) não morreu, porque não morrerá, ela vive em todos os seres, quer humanos, quer espiritual").
Ele atrelou o progresso da capoeira ao progresso do capoeirista. Para o Mestre, a complexidade da capoeira angola dificulta-lhe uma definição:"Ela é tudo que a boca come"."ela é cheia de malícia,é artimanha,tem possibilidade para tudo que pensar de bom na vida". Na belíssima interpretação das palavras do mestre Pastinha, feita pelo Dr. Decânio, "os múltiplos aspectos da capoeira(angola) se manifestam consoante o contexto, como a água que toma a forma do vaso".
O Mestre Pastinha disse que "... a capoeira é espiritualizada no eu de cada qual". É,justamente, essa individualidade que dá ao capoeirista a condição de jogar na roda, quando jogamos com; e na vida, quando precisarmos jogar contra.Em suas palavras,"A capoeira produz efeitos muito mais amplos do que se pode imaginar...e o melhor capoeirista não é aquele que só sabe cantar, tocar e jogar...para ser bom, é preciso ser completo no fundamento".Na intenção de presentear-nos com a sua visão sócio política da capoeira, o mestre afirmou que o capoeirista aprende para defender os seus direitos, e não para "praticar valentia contra a integridade pessoal" do outro.
Finalizando,nos encontramos diante de um grande desafio:dar continuidade às idéias do Mestre Pastinha mesmo diante da necessária dinâmica cultural por que passa a capoeira angola, além da sua ‘mundialização’ desenfreada.
Mestre Moraes.





